Ciência 2035: A Estratégia que não pode faltar a Portugal
Ciência 2035: A Estratégia que não pode faltar a Portugal
Portugal precisa de uma nova Lei da Ciência. Não basta atualizar o quadro legal; é tempo de fazer da ciência um pacto nacional pelo conhecimento e pela autonomia do país.
Subscrito por um grupo inicial de 25 cientistas de diferentes áreas científicas da Universidade de Aveiro*
1. Um momento de viragem
Portugal encontra-se hoje perante uma oportunidade rara, a de rever a sua Lei da Ciência. Duas décadas após o início do seu debate, a atual Lei da Ciência, aprovada apenas em 2019, veio complementar o Decreto-Lei n.º 55/2013, que regula o funcionamento institucional do sistema científico e tecnológico. Em pouco mais de 6 anos, o mundo, o país, a economia e o próprio sistema científico transformaram-se profundamente, e muito mais rapidamente do que nas últimas duas décadas juntas. A ciência é hoje muito mais do que um vetor de conhecimento — é um pilar crítico de soberania, resiliência e coesão. É o que nos permite responder às crises climáticas, à transição energética e digital, às desigualdades sociais e territoriais, e aos desafios de autonomia tecnológica e estratégica.
Esta revisão surge num contexto global exigente e estimulante. A Europa redefiniu a sua política científica com a nova European Research Area (ERA) e os seus programas passaram a ser orientados por grandes missões transformadoras — da neutralidade climática aos oceanos limpos, das cidades sustentáveis à saúde digital — que marcam o novo paradigma do Horizon Europe, que inclui o atual e próximo Programa-Quadro Europeu de financiamento da Investigação e Desenvolvimento Tecnológico. A nível global, a Agenda 2030 das Nações Unidas, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e as orientações da OCDE sublinham a necessidade de sistemas de ciência e inovação resilientes, interdisciplinares e socialmente relevantes.
Portugal tem, neste cenário, uma oportunidade singular: repensar o papel da sua ciência como motor de futuro, alinhada com tendências internacionais, mas focada nas suas vantagens competitivas e na sua autonomia. O país tem densidade científica, talento e tradição académica suficientes para ser cada vez mais uma voz ativa na ciência europeia e atlântica. Para tal terá de ser capaz de se libertar da excessiva burocratização institucional e de fragmentações herdadas de modelos passados.
A nova Lei da Ciência deve, por isso, ser mais do que uma mera atualização administrativa. Deve ser um pacto nacional pelo conhecimento — uma declaração de ambição coletiva, com visão de longo prazo, estabilidade institucional e coragem para mudar o que precisa de ser mudado.
2. Onde estamos: uma ciência que cresceu, mas que precisa de visão e estratégia
Nas últimas duas décadas Portugal consolidou uma rede de investigação competitiva, formou milhares de doutorados, internacionalizou-se e passou a integrar redes de excelência europeias. A produção e a carreira científica consolidaram-se e cresceram em quantidade e qualidade; a sociedade passou a reconhecer o valor da ciência e o país afirmou-se como um exemplo de crescimento rápido em capacidade de investigação nalgumas áreas científicas chave.
No entanto, este sucesso tem fragilidades que hoje ameaçam a sua sustentabilidade. O financiamento é (ainda) instável, dependente de ciclos curtos e sem planeamento plurianual. Falta uma visão estratégica de, pelo menos, médio prazo, que permita consolidar equipas e projetos, e avaliar o impacto das políticas adotadas de forma mensurável e estruturada.
A precariedade das carreiras científicas é talvez o maior obstáculo à maturidade do sistema. Sabemos hoje que cerca de 90% dos investigadores estão em situação laboral precária pelo facto de estarem sujeitos a contratos a prazo. Gerações de investigadores têm vivido entre bolsas, contratos precários e/ou concursos irregulares, com trajetórias profissionais bloqueadas, muitas vezes internamente pelas próprias instituições que integram, e reconhecimento desigual face a outras carreiras da função pública. A isto soma-se a sobrecarga administrativa e burocrática, por falta de estruturas dimensionadas para apoiar aqueles que sucedem em somar financiamentos e projetos, o que é contraintuitivo e até perverso, e afasta investigadores do que é essencial: investigar.
Acresce ainda que a organização da ciência em Portugal é demasiado fragmentada. Várias instituições com funções sobrepostas competem pelos mesmos financiamentos, o que cria redundâncias, ineficiências e fraca coordenação entre ciência, inovação e políticas públicas. Como o financiamento é escasso e mal articulado, estas organizações (e os seus investigadores) acabam por ajustar o seu foco apenas para sobreviver, em vez de seguirem estratégias ou missões próprias, gerando um sistema pouco eficaz e com baixo retorno social e económico.
Por fim, Portugal ainda carece de uma verdadeira articulação entre prioridades nacionais e europeias. Enquanto a Europa avança com políticas orientadas por missões, Portugal continua sem uma visão estratégica sobre quais são as suas próprias missões científicas nacionais — aquelas que traduzem as suas vantagens competitivas e necessidades sociais. Reconhecer estas limitações não é pessimismo: é o primeiro passo para uma ciência madura, capaz de se autoavaliar, reconhecer o que está menos bem e de se reinventar.
3. Para onde queremos ir: ciência orientada por missões estratégicas nacionais
4. Como lá chegar: princípios para uma nova Lei da Ciência
5. O valor estratégico da ciência: soberania, resiliência e coesão
6. Um pacto nacional pelo conhecimento
A revisão da Lei da Ciência é uma escolha política, estratégica e moral sobre o país que queremos ser. Queremos uma ciência que apenas concorra por financiamento, ou uma ciência que ajude a desenhar o futuro coletivo? Queremos ter ciência amadora suportada por investigadores precários, sobrecarregados e desmotivados, ou carreiras sólidas que retenham e atraiam talento? Queremos um sistema fragmentado, ou um ecossistema integrado, orientado por missões e por um propósito comum?
Portugal tem o talento, as instituições e a experiência para realizar esta mudança. Falta agora o enquadramento político e legal que liberte a ciência do curto prazo e a projete para o futuro. Será 2026 o ano em que o país decide colocar o conhecimento no centro do seu modelo de desenvolvimento? Uma nova Lei da Ciência pode — e deve — ser o primeiro passo desse caminho.
* Subscritores Iniciais:
- Ana Isabel Dias Daniel, Departamento de Economia, Gestão, Engenharia Industrial e Turismo & Centro de Investigação em Governação, Competitividade e Políticas Públicas (GOVCOPP)
- Ana Margarida Medrôa de Matos Hilário, Departamento de Biologia & Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM)
- Ana Raquel Santos Calhôa Mano Soares, Departamento de Ciências Médicas & Instituto de Biomedicina (iBiMED)
- António Gil d’Orey de Andrade Campos, Departamento de Engenharia Mecânica & Centro de Tecnologia Mecânica e Automação (TEMA)
- Artur Jorge da Costa Peixoto Alves, Departamento de Biologia & Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM)
- Carlos Daniel Borges Coelho, Departamento de Engenharia Civil & Centro de Investigação e Inovação Sustentável em Engenharia Civil (CERIS-UA)
- Daniela Maria Oliveira Gandra Ribeiro, Departamento de Ciências Médicas & Instituto de Biomedicina (iBiMED)
- Davide Alexandre da Costa Gamboa, Departamento de Geociências & Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM)
- David João da Silva Carvalho, Departamento de Física & Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM)
- Eduardo Manuel Silva Loureiro Alves Ferreira, Departamento de Biologia & Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM)
- Helena Margarida Moreira de Oliveira Vieira, Departamento de Ambiente e Ordenamento & Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM)
- Heliana Lilita Gonçalves Teixeira, Departamento de Biologia & Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM)
- João Filipe Ramos da Silva Carvalho Borges, Departamento de Química & Instituto de Materiais de Aveiro (CICECO)
- Maria Alexandra Castelo Sobral Monteiro, Departamento de Ambiente e Ordenamento & Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM)
- Miguel Lopes Batista Viegas, Departamento de Economia, Gestão, Engenharia Industrial e Turismo & Unidade de Investigação em Governança, Competitividade e Políticas Públicas (GOVCOPP)
- Nuno Miguel dos Santos Durães, Departamento de Geociências & Centro de Geobiociências, Geoengenharia e Geotecnologias (GEOBIOTEC)
- Paula Celeste da Silva Ferreira, Departamento de Engenharia de Materiais e Cerâmica & Instituto de Materiais de Aveiro (CICECO)
- Pedro Filipe Pessoa Macedo, Departamento de Matemática & Centro de Investigação e Desenvolvimento em Matemática e Aplicações (CIDMA)
- Ricardo Jorge Guerra Calado, Departamento de Biologia & Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM)
- Sara Moreno Pires, Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território & Unidade de Investigação em Governança, Competitividade e Políticas Públicas (GOVCOPP)
- Sónia Alexandra Morais Rodrigues, , Departamento de Ambiente e Ordenamento & Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM)
- Susana Bela Soares Sardo, Departamento de Comunicação e Arte & Instituto de Etnomusicologia - Centro de Estudos em Música e Dança (INET MD)
- Susana Isabel Barreto de Miranda Sargento, Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática & Instituto de Telecomunicações
- Vânia Maria Amaro Calisto, Departamento de Química & Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM)
- Xana Sá Pinto, Departamento de Educação e Psicologia & Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF)
Outros subscritores:
- Mário Abel Gonçalves, Departamento de Ciências da Terra e Energia e Instituto Dom Luiz, FCUL
- Bruna Monteiro
- Tiago Henriques da Silva, Universidade do Minho
- Diana Vieira, European Commission, Joint Research Centre (JRC)
- João Eduardo Rodrigues, Departamento de Química & Instituto de Materiais de Aveiro (CICECO)
- Ana Luísa Machado, Departamento de Biologia & Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), Universidade de Aveiro
- Mariana Simões, Utrecht University / Universidade de Aveiro
- Paula Barbosa, Departamento de Física & Instituto de Materiais de Aveiro (CICECO)
- Petia Georgieva, Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática/IEETA/IT
- Anthony Moreira, Departamento de Biologia & Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), Universidade de Aveiro
- João Pedro A. F. Cruz, CIDMA, Universidade de Aveiro
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